27 março 2006

na memória: Bocejo

Bocejo
de
Isabel Ribeiro

na Galeria Plumba, em Setembro/Outubro 2005

Rubor


Verdurin


Guermantes



Do texto de exposição, de Rui Azevedo Ribeiro:

«Os complexos fabris, são, além do habitat natural dos meios de uma produção onde se regista uma transformação pela força, um mecanismo de selecção. Na qual a localização e a própria arquitectura do complexo esclarece o processo que ali se torna efeito, ou seja, o produto que ganha valor acrescentado, ganha esse valor, por um processo lógico e maximizado em função de termos como: custos e tempo; encaixados numa noção de utilidade final.
Guermantes e Verdurin são duas famílias de Marcel Proust no Em Busca do Tempo Perdido, estas duas famílias tinham talvez, por uma noção de dever e de manutenção do estatuto social; o hábito de introduzir novos artistas geralmente músicos, através de serões e festas particulares, desencadeando a partir daí um agenciamento que de certa forma ganha também ele características de um processo.
Isabel Ribeiro ao nomear complexos industriais com os nomes de Guermantes e Verdurin indica uma constatação: a aproximação dos mecanismos de agenciamento e de produção culturais à linguagem de domínio empresarial que no imediato possui uma alteração no tratamento do artista, agora visto como matéria subsidiária com determinadas características passíveis de alinharem num esquema de produção que na sua vertente mais bondosa passa uma ideia de efervescência de actividade e no seu pior contribuem para uma homogeneização cultural. (...) A linguagem fabril é peremptória: se não é útil, não tem valor. E é a adopção da mesma linguagem utilitária que se torna perniciosa. Deixa de haver tempo para tratar outras linguagens que são vistas como patologias. No máximo, aponta-se um qualquer processo de moralização; indica-se um «é preciso» para voltar a encaminhar o autor-refugo para dentro do processo produtivo que só têm uma lei e entende-se obediência: a lei do mercado. Um mercado bocejante e hedonístico, que vê uma função em tudo. E tagarela sobre tudo. É essa mesma postura que vai alimentando a incapacidade de sair dos lugares comuns. »

O elemento eixo da exposição é o vídeo Rubor. Mostra a autora (eu) a ser entrevistada, mas a informação dessa entrevista não é transmitida, o que vemos é antes o incomodo e o embaraço perante a situação: o gaguejar, a tentativa.

«O discurso do mal-estar é para os agentes culturais como um erro no molde. Mas, facilmente esse mal-estar poderá ser transformado no próximo molde eficiente que produzirá o produto com mercado. E isso não mostra mais do que adaptação, algo de que qualquer microorganismo é capaz, para sobreviver. Aprender uma relação entre ideias permanece obscuro. (...)
O que poderá determinar então a diferença? Talvez os paradoxos que se assemelham a uma gaguez em potência. Mas já à muito que se tiraram os microfones aos gagos, por se achar que são intoleráveis ao confortável discurso de aproximação a públicos; a gaguez produz um saltear como se fossem ficções. Vistos por muitos; como males de infeliz ou a uma indigestão… A ficção talvez só em programas de modelação arquitectónica seja ainda possível. Nas outras disciplinas impera a moleza de um olear das traqueias e dos esófagos para engolir o miserabilismo da realidade ou de uma hiper-realidade; que parece ser uma situação de mais ou menos condimentos. E os microfones continuam a surgir com aquele chip repetidor da consonância de discurso; o discurso que obriga a viver; e publicita os acessórios para que a vivência seja confortável: os «é preciso» e os «ter». E se esta é a promessa porque de facto soa a promessa, então, está identificada para o homem a impossibilidade de ficção e de deriva.»

2 comentários:

karl ïnka disse...

benvinda á blogosfera linda!beijocas! estarei atenta

luis monteiro../ disse...

sem conhecer o teu passado mais recente, antevejo no entanto o teu futuro próximo o sucesso é inevitável...

Tu também carlinha , tu também

de mim../