28 abril 2006

ocidente, de marta bernardes


ocidente é o título do vídeo da marta bernardes que vi na galeria mco art, no porto. é-nos proposto um plano fixo bastante simples que apresenta um elástico vulgar, onde está escrita a palavra ocidente, manuseado por alguém que testa ou explora descontraídamente os limites e a resistência do próprio elástico. assim, vamos assistindo ao desfiar de tensões que fazem esticar ou encolher - metaforicamente - o ocidente, sem que este efectivamente rebente. a primeira recompensa que senti ao ver o trabalho dá-se aqui: neste vídeo é verdadeira a eficácia da proposta simples, que não se esgota na ironia.
a simplicidade efectiva da imagem não impede que seja desencadeada mais do que uma associação. apesar de ser um ponto de vista vulgarizado, acredito mesmo que uma das riquezas fundamentais de qualquer projecto de criação reside no seu potencial de multiplicar os pontos de vista possíveis, partindo de um conceito apenas aparentemente simples sugerido pelo autor. assim, para cada um de nós este video pode apresentar-se como motivo de reflexão sobre o passado e sobretudo o presente social, político, económico e também cultural do ocidente. é um trabalho que convoca efectivamente o espectador - ou o que quisermos chamar-lhe.
acredito que a marta quis sublinhar naturalmente as deformidades actuais, assumindo um ponto de vista contemporâneo. sobre essas marcas muitos de nós temos opiniões provavelmente similares, mas o facto é que, à imagem daquilo que a palavra ocidente implica, este projecto não se fecha num só parâmetro. a título de exemplo (e para simplificar escolho a perspectiva social radicalmente oposta àquela onde me situo), um seguidor de uma filosofia neo-nazi poderia considerar igualmente apelativo este vídeo "sobre" o ocidente... por isso, esta é uma obra que carrega também os seus próprios anti-corpos - tal como o "ocidente".
essa possibilidade de desconforto engrandece e liberta o trabalho, numa amplitude capaz de ultrapassar a derrapagem no kitsch político abundante no campo da arte contemporânea. a pedagogia pela provocação, aplicada massivamente à criação no nosso tempo, não tem óbviamente os seus dias contados, mas gera cada vez maior número de projectos ocos e auto-complacentes, independentemente do seu crescendo formal e moralista. esta proposta da marta não me parece ser dessa ordem, em que os artistas conduzem literalmente os "outros" a olharem para o que já experimentaram, sem que nada seja realmente despoletado. este é, na minha opinião, um trabalho que reflecte verdadeiramente um fascínio maior pelas ideias do que pelos objectos, e também por isso é extremamente bem conseguido - e sobretudo livre das diversas variantes de auto-comiseração, tão caras à produção artística ocidental passada e presente.
a boa utilização do suporte vídeo em ocidente foi uma característica que me fez pensar nos trabalhos de douglas gordon, o artista escocês que usa a moral inscrita na condição humana como motor de grande parte da sua obra. lembrei-me especificamente de um dos seus vídeos em que a luta good vs. evil é encenada com recurso às suas próprias mãos, que se atacam mutuamente. poderá ser abusivo da minha parte, mas a simplicidade com que ele representou a vastidão que cada um de nós carrega dentro, entendida em termos morais mas que eu entendo como mais abrangente, encontrei-a também nesta abordagem da marta, sendo que aqui o ponto de vista é o do colectivo muito especial que denominamos ocidente. a brincadeira, tensa e levemente masoquista com um elástico entre os dedos que a maior parte de nós já experimentou e que a marta bernardes aqui recria, é a medida exacta da desorientação ocidental, no melhor e no pior.
estes são os pontos absolutamente essenciais para que, do meu ponto de vista, este trabalho pertença à familia daquelas coisas na vida que, quando experimentadas, nos dão grande gozo por serem ferramentas eficazes de reflexão.
para breve (mesmo!...) fica o registo de ideias sugeridas por outros trabalhos.
Entre outros falhanços,
Texto de Marta Bernardes, Dezembro 2005:
"A Pobreza como substantivo nunca morre penso, mas os pobres esses morrem e morrem mesmo e sobretudo de Pobreza. Ora, se se constata que a Pobreza não morre mas em contrapartida mata e, como qualquer substantivo só existe de facto enquanto no e pelo sujeito, ou antes, se só há Pobreza porque há pobres, posso peremptoriamente concluir que, se há alguma ordem lógica na errância que a Pobreza é, será certamente de cariz suicidário.
Que alívio! Há silogismos que me amenizam a insónia!"

6 comentários:

Anónimo disse...

é pena existirem dois vincos na folha negra que serve de fundo...

Nuno Ramalho disse...

se calhar a marta quis dar um sentido esotérico subtil... ;)

Anónimo disse...

Que vincos?

Ana disse...

Que vincos? disse eu

Anónimo disse...

...os vincos dos olhos de que os viu..ser

Anónimo disse...

...os vincos foram o que te "saltou" aos olhos ???? P.f. vai ao oculista e se não for suficiente eu marco-te uma consulta num BOM OFTALMOLOGISTA