07 dezembro 2007

por D. Manuel II,

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Most Things Haven`t Worked Out
instalação de
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Israel Pimenta
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(as fotos seguintes de, Blues Photography Studio)
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«Acédia», o devir frívolo
por
Rui Ribeiro
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Na exposição Most Things Haven’t Worked Out de Israel Pimenta, composta por pintura, vídeo e som, encontramo-nos perante trabalhos que reflectem um agudo e convivencial discernimento da existência – de uma inviabilidade – que emana os seus convites criando suspensões de vontades, que resultam em tensões constantes. Tensões estas que o autor não limita somente a serem visíveis nas amplas rupturas que os choques civilizacionais nos habituaram. Mas que, de igual forma, encontram território a um nível micro-comportamental, no indivíduo. Prolongando-se aquém na sua vivência, contaminando quase sempre as possibilidades de encontro que ele possa vir a estabelecer, com as interiorizadas e desajustadas suspensões, que o tornam num indivíduo preso aos instantes, às fracções e num suspeitoso adiador. Em que, de vez em quando, a advertência de uma consciencialização poderá surgir como uma pinga na cabeça. Mas o que fazer? Se a pinga não é fria, nem vem a ferver...
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Águas mornas são o habitat natural da indiferença e da frivolidade. Que, numa Europa que parece ressentir-se da culpa do gigantesco fracasso que foi o incumprimento das promessas do racionalismo moderno, expõe-se como traumática cicatriz, centrando-se em posições de impasse, onde os mais descarados são capazes de ver comedimentos. A História da Europa, exegese do seu passado, faz uma oposição a si mesma. Abrindo espaço ao pragmatismo autoritário de países com uma História recente que, apoiando-se numa métrica comparativa em relação à Europa dos fracassos, verificam possuir ainda tempo de sobra para limitar a inconsequência dos seus actos.
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«A maioria das coisas não funcionou»; esse fracasso, que pode ser visto também como um desabafo, índole destes «ares do tempo» que respiramos, permite a Israel Pimenta veicular no seu trabalho pequenas narrações que se sobrepõem à História, essa narração maior. A filósofa Hannah Arendt, estabeleceu muito bem a diferença que existe entre indivíduo da “history” e o da “story”.
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No trabalho de pintura intitulado No Quarter, o autor apresenta-nos uma tela onde sucessivas velaturas sugerem uma espécie de camuflagem quase semelhante aos uniformes das figuras militares que ali se apresentam. «No Quarter» em calão militar significa não dar tréguas a quem se rende, inclemência para o opositor. Uma figura destacada, porque mais intencionalmente definida e trabalhada pelo autor, aponta uma subjectiva direcção no meio de escombros de uma Beirute constantemente martirizada por sucessivos conflitos, cuja desordem é representada na tela de Israel Pimenta através de um cenário em picado observador. Constituiu uma imagem idêntica àquelas que hoje tão facilmente assimilamos, de tão expandidas e divulgadas que se encontram. É apenas uma imagem que pela repetição desafecta, perde-se em destino aos que já não são um estar-entre, de que, bem vista as coisas, a palavra inter-esse é significante.
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O estado de acédia é esse desinteresse e é essa frivolidade. Aquela figura que aponta, ao não ser apenas um pedaço remanescente do que ali se poderá ter passado, remete para a possibilidade de inventar e imaginar uma outra narração, uma estória (story). E isto só por si desbloqueia. Sendo uma variação, difere das grandes linhas de contextualização dos nódulos que a aglutinadora História, juntamente com os grandes órgãos de informação propaga, apagando e marginalizando com o seu olhar exterior: des-inter-esse.
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A relação do indivíduo com o que lhe é extrínseco assume uma forma mecânica, em que uma oposição inevitável com uma dinâmica interior é uma das atitudes que o indivíduo encontra para procurar um equilíbrio. É esse equilíbrio que a peça sonora intitulada Acédia possibilita questionar. Um som, cujo contexto intrínseco é lhe retirado – toda a sua dinâmica é posta em causa, mantendo apenas um elemento em funcionamento. Trata-se do som de uma série humorística (sitcom), onde toda a acção foi «apagada», mantendo apenas as gargalhadas que, como síntese dinâmica revelam o seu lado maquinal. Porém, para esta peça ser percepcionada teremos de entrar num aparato, num mecanismo, e ficar expostos a uma luz que nos tornará num foco de atenção; mas que, ao mesmo tempo, tem por resultado uma inconsequência.
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Na instalação de vídeo Void, duas personagens aparentemente deslocadas em relação a uma paisagem enfrentam-se num “jogo” de reflexos que pode ser entendido como uma alegoria aos desajustamentos de poder que as relações amorosas não deixam de comportar. Um jogo de luz e sombra numa ideia de dispositivo sempre a funcionar em intermitência. A ironia da imagem recorrente de uma atitude sobretudo panfletária a que se re-corre a todo o momento para promover uma qualquer panaceia milagrosa, não passa despercebida. As duas personagens do trabalho de Israel Pimenta têm um ar desgastado e descomposto, tal como descomposta nos poderá parecer a máscara desgastada dos paraísos artificiais que nos incutem.

Junto a uma fronteira, estas duas personagem correm para o que parece ser um encontro. Mas tal como muitas das vezes na vida, corre-se em frente para perceber que o que se fez, foi correr para um lado. Tenta-se apreender o reflexo com uma ideia de habilitação do tipo: quanto mais, mais. E insiste-se...
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Remocratie é uma instalação de vídeo composto por três momentos em simultâneo. Num primeiro momento, visionamos um ambiente seco onde algo se queima. Não se vislumbra o fogo, mas onde há fumo... Ter esta ideia de consumição pelo destrutivo poder do fogo parece-nos essencial e de certa forma serve de interligação aos outros dois momentos. No segundo momento, a estátua ícone da liberdade é confrontada por um vulto que assume uma posição, também ela iconográfica mas de antagonismo: a pose de revindicação que por um obscurecimento tem semelhante figura no terrorismo, confronta o ícone com o ícone. A ideia principal que retemos é o da confrontação. Já o terceiro momento, parece ser o mais pacífico, voltamos ao lugar onde a consumação teve efeito para encontrá-la sanada. Porém a cicatriz serve-nos de memória do primeiro momento, onde agora floresce uma série de elementos vegetativos num ambiente abundantemente preenchido.
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Presentation Run (Marking Space) é uma vídeo-projecção, onde se vê um personagem que caminha num trajecto por várias paisagens, carregando numa das mãos uma pedra. Em todo este trabalho existe uma tensão que em muito advém de não nos serem facultadas as intenções do indivíduo, a utilidade do objecto que ele carrega, ou o seu destino final. Permitem-nos assim, na estância que o autor nos coloca, sermos os agentes definidores da story daquele personagem, imaginando o preenchimento dos espaços em «branco» que nos é facultado. Estarmos com a nossa imaginação permite desbloquear. Numa situação de tensão pedem-se soluções imaginativas.
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na Galeria Reflexus-Arte Contemporânea
até 15 de Dezembro
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1 comentário:

jmsm disse...

Boa!!
Passarei lá novamente amanhã
Para rever a expôs do Israel
Apareçam