10 novembro 2006

arte sem vergonha de o ser



when faith moves mountains (a project for geological displacement) 2002

i think there are just a few things that you can say as an artist. francis alys dixit.

toda a gente - acho mesmo que quase literalmente posso usar a expressao - conhece este projecto e o seu autor, mas nos mantemos aqui uma seccao 'na memoria' e por isso quis aproveitar.
para a concretizacao do gesto poderoso, mas absurdo, foram precisos mais de 500 voluntarios reunidos numa duna de areia em ventanilla, um bairro de lata nos arredores de lima, capital do peru. o projecto foi realizado em abril de 2002, depois de dois anos de contactos. ninguem recebeu dinheiro, nem as pessoas que vemos na imagem, nem os que forneceram as pas, transporte, alimentacao, etc.
alys, arquitecto de formacao e residente da cidade do mexico desde finais dos anos 80 - onde chegou na expectativa de participar num projecto de reconstrucao arquitectonica decorrente do terramoto de 1985 - continua a retirar da simples experiencia fisica de caminhar pela sua cidade adoptada alguns dos projectos mais inteligentes da producao cultural contemporanea.
o desvio de poucos centimetros que estas pessoas conseguiram impor na gigantesca duna de areia ao fim do dia ainda brilha, nao tanto nas coleccoes dos museus aonde a documentacao do projecto foi parar, mas sobretudo na memoria daqueles que participaram, viram ou ouviram falar no dia em que, perto do final do regime de alberto fujimori, num pais deprimido (quem e que inventa estas expressoes?!...), os homens moveram realmente uma montanha.
ultima nota para manifestar o meu acordo, que vale o que vale, com a ideia de alys; so algumas coisas e que se podem dizer certeiramente usando o discurso artistico como ferramenta; melhor, ha que saber como usar essa ferramenta. o projecto de francis alys nao tem nem precisa de muitas palavras. alias, note-se bem, nao tem nenhuma; mas diz tudo, e sem hesitar quanto ao seu caracter de obra de arte.

4 comentários:

Tiago disse...

é fantastico, pq vi o video desta performance ha 2 dias em Aix en Provence, França, no ambito de uma exposiçao de homenagem a Cezanne. A Cezanne o que é de Cezanne, em traduçao literal.

intruso disse...

(e no entanto) ... ela move-se.

Nuno Ramalho disse...

o mundo e um lugar animado por felizes acasos, nao e?
a montanha a unir duas visoes bem diferentes sobre o real e a utopia, a de cezanne na construcao efectiva da modernidade, desejada e carregada de possibilidades; a de alys na ressaca prolongada da pos-modernidade, a re-colocar um pouco de fe em nos proprios no tempo de todos os desencantos.
afinal, quem verdadeiramente se continua a mover somos nos.

merdinhas disse...

A cadeia de homens vento...