27 novembro 2006

cronica de s. francisco. o mundo karaoke



phil collins, dunya dinlemiyor, 2005

dia de chuva passado no museu de arte moderna de s. francisco. oportunidade para ver ao vivo de que forma e que o video esta perfeitamente implementado enquanto linguagem - ja nao me refiro obviamente ao aspecto da criacao usando o video enquanto ferramenta; refiro-me a forma como os "publicos da arte" estao receptivos a propostas artisticas nesse medium (e porque e que estao...); e sobretudo de que forma e que tanto a criacao, como integracao e circulacao nesse e desse suporte aparece ligada ao escalar da paisagem finaceira global, tambem ela de certa forma "imaterial", reproduzivel e em expancao.

mas isso sera outra historia para outra altura. por agora, fixo-me no trabalho de phil collins, um dos candidatos ao premio turner deste ano.

antes de avancar, e a proposito de turner, uma das impressoes que retive ao ver a grande exposicao de anselm kiefer 'heaven and earh', tambem no sfmoma, foi precisamente a de um turner 'ao contrario', indicando um processo de regressao ou inversao... o monstruoso, que e tambem condicao do humano, sera certamente constatado nestes trabalhos, porque visivelmente se continua a preferir chafurdar nos tiques do costume - grandeza, queda, miserabilismo, ruina. mas nao ha espaco para o monstruoso ser criticado nem assimilado porque certas coisas deverao permanecer no estatuto do indizivel, do tabu... talvez. mas o que aqui resulta de fascinante e a chatice, dogmatica e pomposa, do discurso, e os dois ou tres trabalhos onde ja estava tudo inscrito - que no entanto se tornam progressivamente mais palidos com a repeticao programatica a que o autor se tem vindo a dedicar.
ainda integrando a programacao, nao quero passar ao lado da referencia aos trabalhos de jane e louise wilson, 'stasi city' de 1997, e de fikret atay, ' tinica', de 2004. os dois projectos estao reunidos na mostra 'charged space'. sao dois olhares videograficos (surpresa!) sobre locais efectivamente carregados pela historia e pela ideologia, quer na alemanha pos-guerra quer na zona de influencia curda entre o iraque e a turquia. nao adianto mais, ficara para outra cronica de s. francisco.

quanto a phil collins, o britanico apresenta no museu o segundo passo do que se tornara, com o proximo capitulo, numa trilogia. o ponto de partida e o album 'the world won't listen', dos the smiths, e uma maquina de karaoke especificamente desenvolvida em colaboracao com musicos colombianos para recriar as musicas que fazem parte desse album.
a primeira parte do projecto decorreu em bogota. o artista espalhou cartazes pela cidade apelando 'aos timidos, insatisfeitos, narcisistas e a quem quer que seja que alguma vez tenha desejado ser outra pessoa por uma noite' (a traducao e minha, por isso e bastante livre) para participarem no karaoke dos smiths. o resultado foi uma grande adesao de participantes e o video 'el mundo no escuchara', de 2004.

o mesmo apelo foi feito na segunda fase, que decorreu em istambul, envolvendo tambem uma campanha pelas discotecas da cidade e anuncios na radio. o video que collins filmou chama-se 'dunya dinlemiyor' (traducao em turco de 'the world won't listen'), e faz agora parte da coleccao do museu.



a proposito desse aspecto, nao posso deixar de sublinhar a transparencia de todo o processo: desde quem e que pagou efectivamente a obra; ate uma sala onde sao mostrados os trabalhos que contextualizam a aquisicao, com obras da coleccao do sfmoma de gente tao diversa como elyzabeth peyton ( um estranho retrato homoerotico dos irmaos gallagher em intimidade...sera que ainda nos lembraremos deles daqui por uns anos? ...ainda alguem se lembrara deste retrato de peyton?), mona hatoum, nan goldin, august sandler ou martha rosler. estas obras nao so ampliam a leitura do trabalho de collins como expoem claramente a direccao escolhida para a coleccao - e um possivel dialogo entre autores. um exemplo indirecto desta relacao e o facto do trabalho em fotografia que collins desenvolveu inicialmente ser herdeiro directo da obra de goldin - basta ver o retrato fotografico que o britanico fez do seu namorado, com o nariz partido, para perceber do que estou a falar. (mas se formos falar de herdeiros de nan goldin nunca mais paramos, certo?)

nao se pense que a estrategia de visibilidade montada pelo museu para apresentar 'dunya dinlemiyor' serve de muleta a uma obra menor; longe disso. o video de collins e simples e bastante poderoso.



como em goldin, a identidade do intimo faz parte do trabalho deste autor, embora deslocada para uma rede de menor personalizacao que se estende ate aos espectaculos televisivos em torno do "real" - "the return of the real' e o fabuloso nome que collins deu a um dos seus projectos, referindo-se nao so o livro de hal foster como aos ex-participantes de diversos reality-shows que aparecem retratados.
em 'dunya dinlemiyor' ha uma humanidade estranha a pairar; mais tarde ou mais cedo descobrimos que e a nossa. a sintonia entre o que se ve e o que nos somos ultrapassa em larga medida um efeito de parodia ou de voyeurismo compraziveis com a exposicao dos interpretes que vamos vendo na projeccao. algo acontece em cada parte do que vemos, cada interpretacao e efectivamente unica e a cada uma respondemos de maneira completamente autonoma - deixamos de reduzir tudo a um colectivo (que normalmente tras consigo a formacao fantasmatica do racismo, tambem ela fundamental para a experiencia do trabalho) e passamos a ver individuos com os quais estamos efectivamente relaccionados.

assim, a artificialidade nao esta no karaoke mas nas cargas culturais que collins faz detonar. ao vermos este trabalho e impossivel nao nos confrontarmos com os estereotipos sobre "o outro" que espreitam constantemente dentro de nos, seja o outro turco, chines - ou americano; maricas ou macho; branco, preto, arabe, judeu ou cristao; mulher, homem ou nem por isso. tal como e impossivel nao atentarmos nas letras das musicas que estao a cantar para nos - e o local onde o fazem. claramente vem a memoria a relacao turquia e "europa" (assim mesmo, finalmente percebi as aspas do sr. vasco p. valente...).

para mim, o mais relevante no facto de collins trabalhar em locais como belfast, ramallah, bogota ou bagdad, e a sua recusa em perseguir o "local" com a curiosa necessidade de lhe "dar" voz, como forma de redencao ou pior, de compensacao - e la vai o verdadeiro artista mudar o mundo... a abordagem de collins parece ser mais sofisticada do que isso: o mundo e um local de contactos, interrogacoes e contaminacoes a acontecerem constantemente, onde o poder esta em toda a relacao que se possa estabelecer, como diria foucault. dito de outro modo, o que parece mover collins neste projecto e saber de que forma e que elementos que passam de uma cultura para a outra se tornam parte dessa nova cultura - mas nunca de forma esteril, pois como oswald de andrade propunha no seu 'manifesto antropofagico', qualquer cultura 'come' cultura. a delicia deste trabalho e que a collins bastou-lhe agitar levemente a agua para algo emergir, sejam questoes sobre os efeitos da alteridade ou imperialismo, sejam questoes da identidade de genero ou "nacional". recusar a abordagem obvia de guerrilha (que ameaca tornar-se na enesima encarnacao do academismo) nao implica ignorar; pelo contrario, a sugestao e infinitamente mais poderosa. mais do que vincar cisoes, e um ponto de vista que defende a fractura enquanto aproximacao, interrogando os dois conceitos na sua artificialidade ideologica.



"(...) in a moment of cold-war fueled fear, from within margaret thatcher's england, morrissey once sang " if it's not love / then it's the bomb / that will brings us together." today, the threat of the bomb once again looms large and atrocious wars are raging, propelled - we have been told - by the ideological differences between east and west to which collins work alludes. with this in mind, listen and watch one young man in dunya dinlemiyor: "sing me to sleep" he entreats us, as collins holds him in a tight close-up. he looks down often and closes his eyes between phrases. he seems to be on the verge of tears, and it is almost unbearable to watch. we may focus on the scars on his forehead. where did they come from? what has he been through? what can we know about him? nothing at all, really. we cannot assimilate him into our knowledge, - cannot categorize him or fix him in place. in the end he sings "there is another world / there is a better world / well, there must be." when first released, the words of the song bespoke adolescent self-pity fanatsies of suicide as an easy escape from loneliness and the drudgery of life. but we may hear a more complicated undercurrent in this new voice, both hopeful and questioning. another world is possible. but the world must listen."

este excerto faz parte do texto escrito por jill dawsey, antiga curadora do sfmoma. e certamente bastante certeiro ao localizar o trabalho numa forma de criacao que nao vampiriza ou vitimiza ninguem, nao e uma cretinice "documental" em busca da exposicao de uma "verdade" ou de uma entrega de circunstancia. pelo contrario, potencia uma zona de contacto efectiva. enquanto espectadores (e partindo da constatacao de que enquanto tal TODOS temos bagagens diferentes que possibilitam respostas igualmente diversas), somos seduzidos e somos entretidos, como a utilizacao do karaoke - e arrisco mesmo a dizer: da arte - faria supor. somos igualmente confrontados com as zonas de friccao que nos proprios criamos constantemente, e que sao intrinsecas a condicao humana, como chantal mouffe sublinha. dito de outra forma, somos responsaveis por saber o que e que consta da nossa propria bagagem e como e certas coisas la foram parar. tudo ao som do mundo karaoke.

12 comentários:

the devil wears bombazina disse...

boa crónica...houvessem mais exposições "dessas" por cá!

Nuno Ramalho disse...

bom nome!...mas nao consegui um link para o teu blog; alguma dica?

percebo o teu ponto de vista, embora me pareca facil cair sempre no mesmo tipo de tentacao. ha que ter atencao ao que se vai passando no nosso pais e nao generalizar. apesar da nossa programacao institucional nao parecer muito virada para este tipo de discurso, ainda assim ha coisas que vao sendo ditas - dentro e fora desse circuito.

ART&TAL disse...

espectaculo festivo... potente cantoria

the devil wears bombazina disse...

sorry, nope! não está 'em uso'..
concordo, a generalização é perniciosa e perigosa...mas nem queria ir por aí, a ideia era sublinhar que pese embora o facto indesmentível do que vai acontecendo por cá ser interessante, e de se 'irem dizendo coisas' ( a arte tem de dizê-las, parece-me..), a sensação que tenho é a de que faltam sempre mais coisas para o bolo ser maior e melhor, mais apetitoso se quiseres... e eu escrevo do Interior, o que influi no meu 'desabafo':)Mais Arte para o Interior do país:))

fica bem!

merdinhas disse...

Gostava de ver/ouvir esses novos The Smiths...

Nuno Ramalho disse...

the devil has spoken!... quanto a necessidade efectiva de mais e melhor estamos perfeitamente em sintonia - mas convem nao esquecer que vivemos debaixo da tirania das cidades globais...

merdinhas, (outro nome brilhante), podes ver um pequeno excerto na tv do povo, ou seja, youtube. como nao sei trabalhar com o computador a nao ser para as coisas mais simples, nao pude por um link ate la, mas se procurares por phil collins em 'arts' deves encontrar.

ART&TAL disse...

só falta o olaio

intruso disse...

"vivemos debaixo da tirania das cidades globais..."

...

sobreposições de tiques e formas culturais...
fiquei curioso com a instalação/video...
[ íntimo_individual_global (?) ]
dá-me a ideia de que a escolha dos lugares, pelo que disseste, não é de todo "inocente"...


vou espreitar no youtube...

isabel disse...

lovely link!

Anónimo disse...

gostei muito do teu texto
da tua visão sobre as obras
a obra
o levantar questões
e claro
'the world won't listen', dos the smiths

parabens ao artista-crítico
BOA!!!!

até já
maia

estou esperando por outro

averara disse...

do tal grupo.. uma arvore no rabo..

averara disse...

meramente honorífico.